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  • O Movimento LGBT na Igreja: o Movimento Cores

    da Igreja Batista da Lagoinha no bairro Savassi

    The LGBT Moviment in the Church: the Movimento Cores

    of the Lagoinha Savassi Baptist Church

    Adrielly Marinho; Brbara Cunha; Brbara Soalheiro; Daniel Rodrigues; Dbora Alves;

    Isadora Barbosa; Ivana Rodrigues; Lygia Roque; Thiago Montalvo

    Faculdade de Estudos Administrativos de Minas Gerais FEAD

    Resumo

    Este trabalho focaliza na viso do movimento LGBT e da sexualidade de acordo com as

    perspectivas pastorais evanglicas da Igreja Batista da Lagoinha, localizada no bairro

    Savassi de Belo Horizonte. A partir da anlise das entrevistas coletivas, e de estudo de

    campo, o autor discute e problematiza a viso heteronormativa que a igreja adota como

    postura e mtodo de exterminar o comportamento homoafetivo dos seus seguidores. Os

    dados foram coletados no segundo semestre do ano de 2015.

    Palavras-chave: Movimento LGBT; Religio; Igreja; Movimento Cores.

    Introduo

    Fundado por Priscila Coelho h cerca de um ano, o Movimento Cores ocorre no ncleo

    da Igreja Batista Lagoinha-Savassi, localizado na Avenida do Contorno, nmero 6342,

    Bairro Savassi. Ncleo esse que tem como foco o acolhimento de diversas tribos

    sociais. Este trabalho, no entanto, se restringe ao Movimento Cores, um encontro

    religioso que tem como objetivo apresentar o evangelho para a comunidade LGBT.

    Primeiramente, atravs da fachada, o local j se revela ser um ambiente totalmente

    despojado. Podendo ser confundido com uma casa noturna primeira vista. Aps

    entrevistas realizadas no estabelecimento, descobriu-se que o intuito que motivou as

    pessoas a procurarem o ncleo, segundo os frequentadores entrevistados, foi devido

    prpria f. A necessidade de estar em um local onde fossem bem acolhidos e que no

    houvesse olhares preconceituosos tambm foi um fator. O movimento abrange todas as

    faixas etrias, e a maioria dos frequentadores so mulheres. Observao que pode ser

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  • comparada com o patriarcado, onde vemos que a submisso da mulher perante a

    sociedade predominante.

    Em entrevista, a fundadora Priscila Coelho contou que a ideia de criar o movimento

    surgiu aps, segundo seu relato, ter recebido uma revelao do prprio Deus. Ela

    acredita que de acordo com a mensagem revelada, atravs do deus cristo, teria que

    trabalhar com esse pblico no contexto da igreja evanglica. Ela conta tambm, que a

    dificuldade inicial foi o receio de o pblico alvo achar que no iriam ser bem recebidos,

    e que o objetivo do movimento seria impor uma cura gay. "Essa questo LGBT e

    igreja muito complicada, porque quase dividida, ento as pessoas tm um

    pensamento equivocado acerca de quem Jesus ! At mesmos os gays e os

    heterossexuais, eles acham que, por exemplo, uma igreja evanglica, e eu no estou

    dizendo que no tenha igrejas que so assim, vo condenar o cara antes mesmo dele

    chegar. Ento ele tem que chegar heterossexual e totalmente modificado. E no foi essa

    proposta de Jesus... Jesus diz que as pessoas tem que ir at ele da forma que elas esto,

    se so heterossexuais, se so homossexuais, se so pedfilos, mdicos, advogados tem

    que vir para Jesus com suas dificuldades.", relatou Priscila

    Frequentam o projeto, em mdia, cerca de 300 pessoas. E com faixa etria de 15 a 60

    anos, na maioria so mulheres. Podemos relatar aqui sobre a grande influncia do

    patriarcado sobre as mulheres, onde h uma maior privatizao de seus atos e maneiras

    de pensar perante a sociedade. O projeto existe h um ano, mas foi efetivado apenas

    sete meses, e tem como a participante mais velha a Tia Dad, de 60 anos. Ela veio do

    contexto da homossexualidade, porm se tornou uma ex-praticante h dois anos!

    Durante trinta anos foi casada com uma mulher. Os homoafetivos no acreditam que

    exista ser ex-gay, mas na nossa linguagem, ela se torna filha de Deus, ex- praticante!

    Ser ex-praticante para ns no envolver com pessoas do mesmo sexo., explica a

    idealizadora Priscila.

    Jovens menores de idade tambm podem frequentar o culto sem acompanhamento dos

    responsveis legais. A organizadora explica que, por se tratar de uma Igreja, no existe

    uma proibio, independente da temtica envolvida.

    Durante os primeiros dias de estudo de campo, os participantes inicialmente ficaram

    bastante receosos com a nossa presena. Percebe-se que so pessoas fragilizadas, que j

    sofreram, e ainda sofrem muito preconceito. Queriam saber o motivo de estarmos ali,

    qual intuito do trabalho, e o porqu da escolha do tema. Receio esse, que foi quebrado

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  • com o passar das visitas e entrevistas. Finalmente, aos poucos, conseguimos estabelecer

    confiana e fomos convidados varias vezes a retornar as reunies, e a participar dos

    eventos extras que o movimento promove.

    medida que fomos adentrando, cada vez mais, na intimidade dos participantes, pde-

    se notar que grande parte deles eram pessoas extremamente confusas e infelizes com

    suas condies. Alguns acreditavam que a homossexualidade realmente era uma doena

    e que, segundo os mesmos, por se tratar de um grande pecado, isso ocasionaria

    diferentes tipos de desgraas em suas vidas. Outros, porm, discordam deste tipo de

    argumento, mas ainda assim estavam dispostos a seguirem a proposta fundamentalista

    da Igreja, seja pela prpria f, ou por obrigao dos pais.

    Quando questionados se seus familiares eram conscientes de suas opes sexuais, as

    respostas foram variadas. Alguns informaram que sim, e que sempre foram apoiados

    pelos familiares. Outros informaram que somente um dos pais possuam conhecimento

    de sua homoafetividade, e que geralmente eram as mes. Todavia, a grande maioria

    sabia que seus filhos so frequentadores do Movimento Cores, o que teoricamente j

    subtendia para os pais a opo sexual de seus filhos.

    Ao entrevistar a idealizadora Priscila Coelho, descobrimos que muitos pais recorrem

    ela em busca de maiores informaes sobre o movimento: "Eles vm e pedem ajuda!

    Outros vm para conhecer, pra entender a proposta... Inicialmente os pais ficam na

    dvida, mas depois que conhecem, eles entendem que a proposta deixar Deus agir

    nesses meninos, no tem muito a ver com a gente no."

    Questionada sobre a ideia de converter os homossexuais, Priscila nos contou que o

    movimento no os obriga a se converterem, porm h o incentivo de que abandonem a

    prtica homossexual, se tornando assim, homossexuais no praticantes. Como ela

    mesma se declara ser: Uma gay no praticante. "Ns no convertemos ningum a

    nada, a mudana no pode vir da gente, aqui um espao onde se fala de Deus, o Deus

    da bblia, o Jesus da bblia, para os homossexuais. O que acontece com eles, se eles

    voluntariamente abandonam a homossexualidade, ou no, a j no tem nada a ver com

    a gente. Ento a nossa proposta no mudar a opo sexual deles. Eles no so

    obrigados por mim, e nem por ningum aqui a se tornarem outras pessoas... porque o

    ser, dentro... Se eles se tornam outras pessoas, automaticamente, eles correspondem

    isso com a ao, ento eles se tornam filhos de Deus e compreendem que a

    homossexualidade um dos pecados que afastam a gente de Deus. Quando eles

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  • compreendem isso, eles voluntariamente falam eu no quero mais. Que foi o que

    aconteceu comigo., relatou.

    Resultados e Discusso

    A princpio, a temtica da incluso dos homossexuais religio evanglica vlida,

    tendo em vista o grande preconceito conjunto com discursos de dio vindo de lderes, e

    fiis evanglicos no Brasil. Contudo, de acordo com a observao antropolgica do

    estudo, percebemos que a doutrina religiosa ainda toma a ideia de heteronormatividade

    como ideal de restaurao sexual. E como sendo a nica e correta forma a ser seguida

    dentro de uma sociedade crist, que mantm a ideologia da homossexualidade como

    sendo algo no aceitvel, e pecaminoso, no contexto religioso. Dessa forma, a moral

    religiosa ainda prevalece e a adoo de um posicionamento construtivista, conservador,

    e fundamentalista por parte dos evanglicos, deixa margem possibilidade de

    gerenciamento dos corpos na produo de uma sexualidade dentro dos limites

    determinados pela doutrina. A problemtica deste pensamento est no efeito em que

    causa no pblico frequentador, sendo na maioria adolescentes, que ainda esto em fase

    de construo sexual. Alm da presso social e familiar, esse tipo de posicionamento,

    vindo de uma figura influente no mbito religioso, traz como consequncia o sentimento

    de inferioridade, tristeza e conflitos existenciais perante a sociedade. E, com o intuito de

    se redimirem, e se adaptarem as condutas heteronormativas, fazem a negao da sua

    prpria sexualidade e natureza.

    Ilustraes

    Fachada da Igreja Batista Lagoinha/Savassi.

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  • Logo do Movimento Cores.

    449

  • Interior da Igreja

    450

  • Cultos e reunies na Igreja.

    451

  • Palestra da idealzadora do projeto, Priscila Coelho.

    Consideraes Finais

    Ao contrrio da premissa de ser uma Igreja inclusiva, o Movimento Cores se mostrou

    como sendo um movimento exclusivo para pessoas LGBT que, atravs do

    fundamentalismo e do discurso religioso, so incentivadas a abandonarem a prtica

    sexual com pessoas do mesmo sexo. A homossexualidade ainda vista como tabu,

    como pecado, e repleto de preconceitos dentro da propo