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IMAGENS CONSTITUINDO NARRATIVAS

v.14, n.3, p.1013-1036, jul.-set. 2007 1013

Imagens constituindo narrativas: fotografia, sade coletivae construo da memria na escrita da histria local*

Narratives created by images: photography, collective health andthe construction of memory in the writing of local history

Lus ReznikPontifcia Universidade Catlicado Rio de Janeiro; Universidadedo Estado do Rio de Janeiro.Rua Henrique Fleiuss, 27820521-260 Rio de Janeiro [email protected]

Marcelo da Silva ArajoSecretaria Municipal deEducao/RJ; Secretaria deEstado de Educao/RJ.Rua Azeredo Lemos, 134,sobrado24474-110 So Gonalo RJ [email protected]

REZNIK, Lus; ARAJO, Marcelo da Silva. Imagensconstituindo narrativas: fotografia, sade coletiva e construoda memria na escrita da histria local. Histria, Cincias, Sade Manguinhos, Rio de Janeiro, v.14, n.3, p.1013-1036, jul.-set. 2007.Analisa os sentidos que emanam do conjunto de fotografiascolecionadas por Luiz Palmier (1893-1955) sobre o Hospital deSo Gonalo, municpio da regio metropolitana do estado doRio de Janeiro. As imagens constituem uma narrativa sugestivados progressos experimentados nessa localidade, especialmenteno campo da sade, constituindo um paradigma para amodernidade nas dcadas de 1930 e 1940. Luiz Palmier, mdicofundador daquela instituio de sade, destacou-se comopersonalidade relevante para a histria local e suas ressonnciasem nveis mais ampliados (regional e nacional).PALAVRAS-CHAVE: Hospital de So Gonalo; fotografia;memria; sade coletiva; modernidade; era Vargas.

REZNIK, Lus; ARAJO, Marcelo da Silva. Narratives createdby images: photography, collective health and the constructionof memory in the writing of local history. Histria, Cincias,Sade Manguinhos, Rio de Janeiro, v.14, n.3, p.1013-1036,July-Sept. 2007.An analysis is made of the meanings that emanate from a set ofphotographs collected by Luiz Palmier (1893-1955) relating to SoGonalo Hospital, named after the municipality in Greater Rio deJaneiro. The images comprise a narrative that points to the progressexperienced at the hospital, especially in healthcare, which was aparadigm for the modern period in the 1930s and 1940s. Luiz Palmier,who was the doctor and founder of the hospital, was a public figurethat played a key role in the local history and its impacts on aregional and national scale.KEYWORDS: So Gonalo Hospital; photography; memory; publichealth; modernity; Vargas era.

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LUS REZNIK E MARCELO DA SILVA ARAJO

Este artigo busca efetuar um breve exerccio de interpretao deparcela das imagens da subsrie Hospital So Gonalo, parteda coleo Luiz Palmier, atualmente custodiada pelo Laboratrio dePesquisa Histrica da Faculdade de Formao de Professoresda Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).1 Nesses termos,a narrativa sobre a instituio sintetiza importantes relaes entre atrajetria de um indivduo Luiz Palmier (1893-1955), o munic-pio de So Gonalo que recebe os influxos caractersticos de umaperiferia estabelecida muito prxima geograficamente do centro ,e as polticas pblicas da era Vargas no campo da sade pblica que, para alm das imposies centralistas, tiveram importanteimpacto normativo no ambiente intelectual e poltico.

O Hospital de So Gonalo foi inaugurado em 1934. Quatroanos depois, uma nova ala, abrangendo novos servios, foi abertaao pblico, dando ensejo a novas comemoraes. Na poca, emagosto de 1938, os principais jornais de Niteri (O Estado, Dirio da

* Este trabalho integrao trabalho de pesquisado Grupo de PesquisaHistria de SoGonalo: Memria eIdentidade, quedesenvolveu, entre2004 e 2006, apesquisa O Intelectuale a Cidade: LuizPalmier e aConformao de umaSo GonaloModerna, e contoucom financiamento doCNPq (EditalUniversal) e da Faperj(Primeiros Projetos).Uma verso reduzidadeste texto foiapresentada noSimpsio da Anpuh-RJ, em 2004.

Figura 1 Legenda original: Na escadaria do Hospital. Grupo de pessoas que tomaram parte nas solenidadesda inaugurao. Mdicos, diretores, conselheiros, damas de caridade, associados e funcionrios do Hospital.O Estado, Niteri, 23 ago. 1938.2

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Manh, O Fluminense) e de So Gonalo (O So Gonalo, A Sentinela,O Gonalense), bem como o Dirio Carioca, da cidade do Rio de Janeiro,registraram o acontecimento. Informaram a seus leitores que ha-via sido inaugurada a ala Jonkopings de Carvalho, em homena-gem a um benemrito das obras do Hospital.3 Integravam essa ala,medindo pouco mais de cem metros quadrados, novos quartos, aenfermaria para operados, o laboratrio, o isolamento e o necrot-rio. Naquele dia, tambm foram inaugurados a lavanderia e a salade mdicos.

Discursaram na cerimnia dona Albertina Campos, presidenteda Associao do Hospital, os mdicos Luiz Palmier e Lauro Batis-ta e os jornalistas Vieira de Macedo e Belarmino Mattos, todos fi-guras ilustres da cidade. noite, nos sales da Prefeitura, a festacontinuou com um baile (ao som do jazz do Patronato4) e a ses-so solene para instalao do Centro Mdico do Hospital. O Cen-tro era uma sociedade cultural que reunia mdicos, farmacuticos,cirurgies dentistas e acadmicos com exerccio nos diversos servi-os do Hospital. Segundo reportagem de O Estado (23 ago. 1938):O Hospital de So Gonalo no somente uma Casa de Caridadenos moldes das antigas instituies filantrpicas. Trata-se antes deuma moderna instituio de assistncia nos moldes de um verda-deiro Hospital-Escola. Os seus modelares servios, agora muito am-pliados, correspondem ao aperfeioamento mximo da modernatcnica hospitalar.

Todos os rgos de imprensa ressaltaram que, durante a ceri-mnia, foi tambm inaugurado o retrato do presidente GetlioVargas, no salo nobre do Hospital. Sublinhou-se, tambm, que adiretoria do Hospital recebera um telegrama da Presidncia da Rep-blica, saudando e agradecendo a colocao do retrato.

Tudo isso foi relatado pela imprensa escrita. Quando olhamospara a nica foto que acompanhou todos esses registros nos vriosperidicos (Figura 1), temos a sensao de que ainda havia muito adizer sobre o episdio. So elementos com os quais os jornalistasda poca no se preocuparam; conseqentemente, no foram re-latados nem detalhados. Como mediadores, ao levar o aconteci-mento ao grande pblico leitor gonalense, carioca e fluminense,fixaram-se no que ele tinha de extraordinrio, de novo, ainda queno necessariamente inusitado, pois incorporaram positivamenteo evento s suas expectativas. A inaugurao da nova ala era ademonstrao do progresso e da modernidade. Novidades espera-das e bem-vindas. Aos seus olhos, deram conta do recado. Aosnossos olhos, quanta coisa no foi dita e descrita! Possivelmenteso elementos banais para os que ali estavam, facetas de seu pr-prio mundo, de seu ambiente cultural. Vistos a distncia, surgeum pequeno fosso, surgem sintomas de um estranhamento. A fo-tografia revela um mundo no descrito em letras. Assim, abre pis-

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tas para uma outra insero naquele acontecimento; abre veredaspara uma nova narrativa.

Na primeira fileira esto as crianas, meninos e meninas bemvestidos e penteados. Elas com vestidos brancos e laos nos cabe-los; eles, de short e palet. exceo de um, todos esto calados(qual ser a intimidade deles com os sapatos?). Apenas uma usaculos, grossos, fundo de garrafa. Crianas loiras e morenas, bran-cas, negras e mestias. Esto srias, de olhos atentos ao fotgrafo,imitando os adultos.

Logo acima, na escadaria, as mulheres. Entre elas, vrias damasda caridade, senhoras responsveis pela promoo de festas e even-tos beneficentes destinados a coletar recursos financeiros a seremrevertidos para a instituio. Ao centro, de chapu, dona AlbertinaCampos, presidente da Associao do Hospital de So Gonalo,agremiao que possibilitou sua construo, administrao e per-manente manuteno dona Albertina era reconhecida professoraatuante no municpio, o que denota um movimento, no restrito localidade, de associao entre educao e higienismo, educao esade pblica. Entre moas e senhoras, duas se destacam, bem direita, carregando no colo seus filhos de tenra idade. No centro,as enfermeiras, profissionais da instituio, devidamente caracteri-zadas, em especial porque dia de festa.

Entre as mulheres, um homem: Luiz Palmier, ao lado de suaesposa, Olga Palmier. Personagem principal desse evento, Palmierera o diretor do Hospital. Havia sido o idealizador dessa empreita-da ao fundar, em janeiro de 1920, juntamente com outras persona-lidades da cidade, a Associao do Hospital de So Gonalo. Napoca com 26 anos, escreveu sobre a So Gonalo dos seus sonhos.Entre tantas utopias a se realizar no municpio, l estavam o Hos-pital e seus pavilhes:

Uma s casa de caridade no comportar todo o desenvolvimento,e outros hospitais sero fundados ou, conservada a unidade, o hos-pital de So Gonalo ter muitos outros pavilhes em que o amparos mes ser iniciado na maternidade para, em seguida, comear oamparo s crianas nas creches e gotas de leite (asilo de proteo infncia) e mais tarde a proteo ao velho (no asilo de velhice), semesquecer os pavilhes para tuberculosos e outras doenas de isola-mento compulsrio. (Palmier, 5 out. 1920)

Utopia nos anos 20, realizao nos anos 30.5 A disposio dospersonagens na fotografia acompanha as preocupaes de Palmierno seu texto de 1920: as mes e as crianas deveriam ser amparadasprimeiramente.6 O amparo maternidade e infncia foram ele-mentos primordiais das polticas de sade pblica nos anos 30. Asrealizaes de Palmier estavam sintonizadas com as preocupaesdos higienistas de sua poca. O Ministrio da Educao e da Sade

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Pblica vinha, des