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  • Do puzzle collage

    Da collage bricolage EURAU12 ABSTRACT. As Panerai (1986) stated, the magnitude of the problems posed by contemporary urbanization, makes us work from the ordinary production. Urban structures are the result of a process based on multiple autonomous interventions. Understanding how each individual project shall participate on the production of large scale urban structures involves the understanding of those processes: its actors, its dynamics, its rules, its contexts. Different processes should imply different attitudes from architects who design each intervention. During the last decades, urbanization processes have changed profoundly. And yet, it seems that the models which guide the design of its elements are still linked to traditional systems of urban growth. Puzzle, Collage and Bricolage are three metaphors which describe three different kinds of urbanization processes, and are proposed as apparatus to reason on which is the architects role on those processes. KEYWORDS: urbanization processes, extensive urbanization, intelligibility, fragmentation, housing developments, crisis.

    Nuno Travasso* * Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto Via Panormica, s/n, 4150-755 Porto, Portugal. [email protected] +351 226 057 100

  • 1. Introduo

    1.1. Do papel do arquitecto na produo de estruturas urbanas

    Haia, como qualquer outra cidade, feita, fundamentalmente por casas iguais. Estas casas alinham-se em ruas, neste caso rectas. [] Aqui e ali h um aberto. Poder ser um jardim ou um edifcio significativo para a cidade um monumento. Para ns, arquitectos, raramente h a possibilidade, a oportunidade, de desenhar um desses monumentos. Na maior parte dos casos e s vezes sempre, durante toda a vida desenhamos os edifcios que fazem o tecido contnuo de uma cidade. H portanto, basicamente, uma repetio. [] De qualquer modo, a beleza e a grandeza dos monumentos depende da qualidade deste tecido contnuo que encarado como pouco significativo ou modesto.

    lvaro Siza Vieira iniciava assim, em 1990, uma famosa conferncia na qual sublinhava a necessidade do arquitecto reconhecer e assumir o seu papel na produo do tecido urbano, determinante do carcter e da identidade da cidade. Um tecido urbano feito daquele que o material mais banal da urbanizao a habitao corrente com base num processo de repetio.

    O presente artigo parte da reflexo sobre este modo de participao do arquitecto no processo de urbanizao. Pergunta-se: como deve o arquitecto participar atravs do projecto de intervenes pontuais e de carcter corrente na construo de estruturas mais vastas e possuidoras de um sentido prprio? Uma questo que ter de ter em conta a condio contempornea e os actuais processos de urbanizao, e que se estende, por implicao directa, a outros actores e procedimentos envolvidos no processo. Segue-se assim o repto de Panerai, que afirma que a magnitude dos problemas que a urbanizao coloca actualmente nos obriga a trabalhar a partir da produo corrente, quer dizer, com o financiamento normal, com processos construtivos usuais e com profissionais de qualidade mdia (1986. 181).

    1.2. Dois deslocamentos

    Procurando reenquadrar a questo, propem-se dois deslocamentos de contexto em relao ao cenrio descrito por lvaro Siza:

    1. alterao de contexto fsico: Quando samos dos centros cannicos e consolidados e nos debruamos sobre a urbanizao extensiva maioritria tanto em extenso como em populao constatamos que os modelos estabelecidos, que nos servem de base aco projectual, deixam de ser operativos enquanto instrumentos de actuao nesses contextos. Deixamos de saber como fazer.

    2. alterao de contexto econmico: A actual crise deixou claro que no temos nem a necessidade nem os recursos para a construo massiva de novos fogos, levando ao reconhecimento de que o imobilirio residencial no pode continuar a ser entendido como fora motriz da urbanizao. Deixamos de saber o que fazer.

  • 1.3. Metfora enquanto ferramenta

    Judith Kinnard sublinha a importncia da metfora enquanto instrumento no seio das disciplinas urbansticas. A metfora, refere, oferece-nos uma imagem mental das redes abstractas [] que conformam o fenmeno urbano enquanto algo concreto e compreensvel (1998. 17). E porque as metforas nos ajudam a produzir sentido a partir da realidade, transformando conceitos abstractos em coisas concretas, que elas parecem ser dispositivos necessrios ao nosso pensamento sobre cidades (ibid. 20).

    Mas as metforas no podem ser vistas apenas como figuras ilustrativas ou explicativas. Elas assumem o controlo da situao com a sua terminologia e as suas ferramentas. Algo especialmente claro no desenho urbano, cuja natureza abstracta [] parece tornar tanto os seus processos como os seus produtos particularmente susceptveis aco destas figuras de discurso. (ibid. 17). Ou seja, as metforas oferecem interpretaes do real, conferindo-lhe sentido(s). E sero, em grande parte, tais interpretaes a guiar e conformar o modo como arquitectos e urbanistas intervm nessa realidade.

    O presente artigo parte de trs metforas puzzle, collage e bricolage entendidas enquanto descritores de trs atitudes do arquitecto no que concerne sua participao na produo de estruturas urbanas, a partir do projecto de intervenes pontuais. Trs atitudes que decorrem de processos de transformao do territrio distintos, resultantes, por seu lado, de diferentes contextos.

    2. Do Puzzle Collage

    O puzzle parte de uma imagem da qual so recortadas as peas. O objectivo a reconstruo dessa imagem predefinida. Aqui, o elemento no preexiste ao conjunto, no mais imediato nem mais antigo, no so os elementos que determinam o conjunto, mas o conjunto que determina os elementos [] s as peas reunidas tomaro um carcter legvel, assumiro um sentido. (PEREC, 1989[1978]. 13).

    Ao contrrio, a collage parte de elementos autnomos preexistentes e com lgicas prprias que se articulam no sentido de criar uma nova unidade. No h uma imagem predefinida a reproduzir; no h um fim a atingir. O resultado aberto e redefine-se no seu todo a cada nova adio. E por isso, nunca est terminado, tal como nunca est incompleto.

    2.1. Novas peas, novo jogo

    Afirmava Siza que uma cidade feita, fundamentalmente, por casas iguais. No entanto, quando olhamos para a urbanizao extensiva do noroeste nacional, percebemos que esta cidade feita, fundamentalmente, por loteamentos (e operaes urbansticas equiparveis). E a esta alterao da pea elementar da urbanizao corresponde uma profunda alterao nas lgicas e processos de transformao do territrio.

    Estamos hoje longe do urbanismo de traados. O processo de urbanizao no pode j ser visto como a sucessiva adio de pequenos elementos casas iguais que se associam a uma estrutura existente ruas construindo uma imagem previamente determinada, como se de um puzzle se tratasse. O jogo outro e no oferece uma imagem final a perseguir impressa na tampa da caixa.

  • A pea base deixa de ser o edifcio e passa a ser o empreendimento de maior escala, que garante a rendibilidade da operao. Este no s traz novas tipologias e novas escalas de desenho e de interveno. Passa tambm a integrar, numa mesma operao, parcelamento, infra-estruturao e ocupao (SILVA, 2005). E, ao incorporar edificado e conjunto de espaos pblicos, deixa de poder ser entendido enquanto elemento que se associa a uma estrutura existente, passando a constituir-se como parte construtora dessa estrutura. A definio da estrutura urbana, competncia que nos modelos cannicos pertenceria ao Estado, transfere-se assim, em parte, para os promotores privados em especial num momento em que os poderes pblicos no revelam capacidade de assumir a sua construo, ou simplesmente o seu traado.

    Fig.1 Loteamentos em Vila Nova de Famalico

    A estrutura urbana vai ento sendo definida pela sucesso de operaes de urbanizao autnomas, que tm revelado srias dificuldades em se articular entre si, e em se relacionar com a sua envolvente directa, no sentido de produzir estruturas contnuas e inteligveis para quem as percorre.

    Algo que decorrer, em parte, das lgicas que determinam o desenho destas peas: assentes em modelos genricos, determinados e testados pelo mercado imobilirio, e baseados em princpios de segurana, exclusividade e distino que tendem a sublinhar a autonomia do produto (MUXI, 2004).

    Mas a referida falta de articulao no resulta apenas de tais modelos. Nada no modo como os processos de urbanizao esto definidos e regulados contribui para

  • que estas peas interajam entre si com vista a participarem activamente na produo de estruturas inteligveis escala territorial. Ou seja, os sistemas de planeamento e gesto no souberam antecipar, acompanhar ou responder s alteraes verificadas nas lgicas de transformao do territrio.

    2.2. Fragmentao: no territrio e nos processos

    Analisando o processo de urbanizao responsvel pela transformao do territrio do noroeste nacional nas ltimas dcadas, deparamo-nos com um estranho paradoxo:

    Por um lado, possumos um sistema de ordenamento que parte do princpio de que o Estado deve dirigir directamente a totalidade do processo de urbanizao, servindo-se para tal de um amplo conjunto de planos que cobrem todas as escalas. Verifica-se, no entanto, uma clara dificuldade na sua implementao. Os planos de escala mais aproximada (PU e PP), aos quais caberia a formalizao e implementao das estratgias determinadas pelos planos que os antecedem, acabaram por corresponder a um conjunto limitado de casos de excepo, pouco relevante na dimenso do territrio urbanizado. (S, 1998).

    Por outro lado, as estruturas urbanas existentes resultam em grande parte da sucesso de loteamentos que, ainda que legais, se desenvolvem margem do sistema de planeamento. Vejamos:

    Criado em 1965, o loteamento urbano veio permitir aos privados desencadearem operaes de urbanizao. Sucessivamente simplificado, acabou por se assumir como um mecanismo de substituio da Administrao pelos particulares no exerccio de funes de planeamento e gesto urbanstica conforme se afirma no prembulo do Regulamento Jurdico da Urbanizao e Edificao (D-L 555/99). Na prtica, o loteamento acabou por se estabelecer como substituto dos planos de escala mais aproximada, dado permitir atingir os mesmos efeitos (excepo feita capacidade que os planos tm de alterar planos de escala superior) de um modo muito mais simplificado e eficaz (MAGALHES, 2007).

    Fig.2 - Loteamentos e fragmentao

  • No entanto, e apesar do seu papel na produo de espao urbano, o loteamento nunca foi encarado enquanto parte do sistema de planeamento. Na verdade parece ser entendido como um elemento incuo que se associa a uma estrutura estabilizada, como se de um edifcio se tratasse. Alis, os licenciamentos de operaes de edificao e de loteamentos urbanos so actualmente regulados pelo mesmo diploma legal (D-L 555/99), levando a que a sua aprovao tenda a limitar-se mera verificao da conformidade regulamentar. No existe, por regra, nenhum momento de negociao ou partilha de deciso com as entidades pblicas, no que toca ao traado de cada operao de loteamento.

    O resultado uma clara disfuncionalidade: - Por um lado, os promotores e projectistas que desenham cada fragmento, no so capazes de os definir enquanto partes construtoras de um sistema mais vasto, sobre o qual no tm uma ideia clara que lhes permita saber qual o papel que deveriam desempenhar na sua produo. - Por outro lado, as entidades gestoras do territrio, a quem cabe definir a estratgia para o dito sistema urbano, no tm capacidade de intervir directamente no desenvolvimento de cada um desses projectos.

    Considera-se, por isso, no ser possvel afirmar que a imagem de fragmentao resultante se deva figura do loteamento em si mesma, mas antes ausncia de mecanismos de mediao que permitam integrar estas peas na produo de estruturas de escala superior (PORTAS, 2007). Tratar-se-, portanto, de uma questo de desadequao dos processos de planeamento e gesto correntes.

    2.3. Em busca de novos processos

    A passagem do puzzle collage, obriga passagem de um de planeamento assente na definio prvia de uma imagem a atingir, para formas de regulao apostadas em encontrar mecanismos de articulao entre as peas que vo sendo propostas, procurando conjug-las na produo de sistemas inteligveis. Uma passagem, portanto, da definio de um desenho, para a criao de um processo: a partir da definio clara dos objectivos, cria-se um quadro comum e um conjunto de regras que devero enquadrar e promover a aco dos diferentes agentes. Aos poderes pblicos caberia o papel de regular o sistema, desencadeando e articulando dinmicas, limitando disfuncionalidades e incoerncias (ASCHER, 2010[2001]).

    Da que se proponha um ordenamento mais baseado na gesto quotidiana das pretenses urbansticas. Uma gesto prxima e propositiva, fundada no dilogo e no compromisso entre gestores municipais, promotores e projectistas, assente na convergncia de interesses: procurar uma soluo capaz de promover uma maior qualidade de vida aos habitantes, valorizando o empreendimento e a sua envolvente (PORTAS, TRAVASSO, 2011. 180-186).

    Tal alterao obrigaria a reequacionar o papel dos diferentes intervenientes e o modo como se relacionam:

    - O reconhecimento do papel da iniciativa privada na urbanizao obriga a que os promotores assumam tal responsabilidade, participando activamente na construo dos sistemas urbanos cujos princpios so determinados pelas entidades pblicas, e predispondo-se a desenvolver em conjunto com o municpio as solues que melhor sirvam a sua materializao.

    - Tal cenrio, implica que o municpio assuma um novo papel face ao promotor. J no o de fiscal ou juiz, mas o de uma figura semelhante do cliente: aquele que possibilita, promove, incentiva, mas tambm aquele que lidera o processo e exige

  • qualidade. O gestor teria assim um papel mais activo na direco de cada projecto, procurando a melhor forma de o integrar na estratgia prevista. Teria igualmente acrescidas responsabilidades no processo de planeamento, dado que cada nova adio corresponderia reconfigurao de todo o sistema, obrigando a caminhar para um planeamento de carcter processual, contnuo e reflexivo, tal como proposto por Ascher (2010[2001]).

    - Nesta perspectiva, o arquitecto projectista surgiria numa posio privilegiada para se estabelecer como mediador na negociao entre gestor e promotor entre a estratgia do conjunto e as lgicas inerentes ao empreendimento; entre o interesse colectivo e o interesse privado propondo possibilidades de compromisso atravs do desenho. Interesses distintos, e aparentemente divergentes, so traduzidos, articulados e compatibilizados atravs da sntese promovida pelo projecto, renovando a importncia de um papel ao qual o arquitecto est acostumado: compatibilizar os interesses do cliente ou empregador com a preocupao de contribuir para um melhor espao urbano e para o bem-estar daqueles que o habitam princpio fundamental do exerccio da profisso, plasmado no regulamento de deontologia a que o arquitecto se encontra obrigado (ORDEM DOS ARQUITECTOS, 2001).

    3. Da Collage Bricolage

    Max Ernst descreve o mecanismo da collage enquanto acoplamento de duas realidades aparentemente inacoplveis sobre um plano que no lhes convm (1996[1936]. 432). Parte-se, portanto, de entidades existentes e autnomas que se adicionam a uma composio qual so originalmente estranhas.

    Ao contrrio, na bricolage, os materiais e instrumentos disponveis para a aco limitam-se queles que se encontram no local. O processo assenta na produo de uma nova entidade com base na reconfigurao dos materiais existentes que, nesse acto, passam a assumir novos significados. (LVI-STRAUSS, 2008[1962])

    3.1. Game over (?)

    A ideia de collage, tal como aqui apresentada, descreve um processo de urbanizao assente na sucessiva adio de novas peas, que tem por fora motriz o sector imobilirio. Um processo que agora posto em causa pela crise que atravessamos.

    Para alm dos efeitos circunstanciais que conduzem a uma temporria ausncia generalizada de investimento a actual crise econmica e financeira precipitou o fim do modelo de crescimento nacional. Um modelo com fim anunciado, por exausto de recursos (j em mutao desde o final da dcada de 90), dominado pela produo de bens no transaccionveis, com especial destaque para o sector da construo (redes infra-estruturais, equipamentos pblicos, promoo imobiliria), alimentado por fundos comunitrios e emprstimos bancrios (FIGUEIREDO, 2012). Encontramo-nos ento face a uma mudana de paradigma no que toca a modelos econmicos que influenciar, necessariamente, os processos de urbanizao. Algo que no exclusivo do contexto nacional. Alain Bourdin fala do fim de um ciclo e da necessidade do desenvolvimento de novas formas de actuao para um urbanismo depois da crise (2011[2010]).

    Todo o cuidado aconselhvel no que toca anlise de dados estatsticos. Mdias nacionais e regionais uniformizam assimetrias locais e, sobretudo, nem sempre

  • desocultam eficazmente a multiplicidade de factores e causas de que resultam os nmeros. Parece no entanto seguro afirmar que estamos perante uma relativa saturao do mercado residencial. De acordo com o Censos 2011 (INE) contam-se em Portugal um total de 5.865.390 alojamentos, perfazendo uma mdia de 1,45 alojamentos por famlia, dos quais 12,5% (734.846) se encontram vagos.

    Compreende-se assim que se verificasse j desde o ano 2000 uma diminuio, lenta mas contnua, da promoo de nova habitao. Algo que corresponderia a uma progressiva mutao do sector, marcada pela diminuio do peso relativo do segmento da construo de nova residncia (principal segmento at 2008) a ser compensada pelo expectvel aumento da reabilitao (NUNES, 2011). A crise trouxe a estagnao do mercado e precipitou esta mutao, produzindo dramticas alteraes no tecido empresarial: manifesta na diminuio do nmero de empresas e de empregos, assim como na alterao da estrutura e modelo de negcio das empresas. Um conjunto de legislao, recente ou ainda em preparao (Regime do Arrendamento Urbano, Lei dos Solos, Lei de Bases da Poltica de Ordenamento do Territrio e de Urbanismo) visa ainda incentivar a referida mudana.

    Fig.3 Decrscimo da promoo imobiliria residencial

    O momento que atravessamos no pode por isso ser entendido como um mero tempo de desacelerao do investimento. Estamos face a uma alterao dos paradigmas no sector imobilirio e, por isso, tambm nos processos de urbanizao. No possvel, neste momento, saber qual ser a nova pea base da transformao do territrio nos contextos da urbanizao extensiva; tambm porque no claro qual o modelo de negcio que a ir sustentar. Mas tudo aponta para um menor peso da construo nova e para operaes de menor escala, sem o mesmo potencial para participar activamente na produo das estruturas urbanas.

  • 3.2. O desafio da Reurbanizao

    Nuno Portas sublinhou recentemente a necessidade de uma aposta na reurbanizao, termo que conota o processo de completar, refazer e melhorar as redes de suporte e espaamento dos conjuntos edificados existentes ou potenciais urbanizaes deficitrias da cidade extensiva (PORTAS, TRAVASSO, 2011. 164). Ou seja, aps um tempo de expanso, impe-se um tempo de consolidao.

    um repto que contraria o discurso corrente, demasiado focado na reabilitao dos ncleos histricos, e que aponta um desafio de extrema dificuldade, dada a vastido das reas em causa, as quais so marcadas por uma urbanizao que no possui nenhum dos factores de diferenciao que viabilizam o referido processo de reabilitao dos centros histricos, em curso. (TRAVASSO, 2012)

    Fig.4 Percentagem de edifcios construdos aps 1970, face ao total de edifcios

    Trata-se, no entanto, de uma aco urgente. Algo que se torna claro quando estimados os custos da inaco, tal como aconselha Joo Ferro (2012). Sabemos que a urbanizao que se estende para l dos centros tradicionais francamente maioritria e caracterizada por uma construo em geral pouco qualificada e bastante recente, fruto da expanso das ltimas dcadas. E ser esta enorme massa de construo a entrar agora em processo de degradao, se nada for feito em contrrio. Uma degradao acentuada por diversos factores:

    - A baixa atractividade destes alojamentos faz com que se vo tornando devolutos. As actuais tendncias de mercado, polarizadas entre a reabilitao em reas de

  • grande excepcionalidade e a procura de habitao nova que garanta todos os nveis de conforto exigidos, parecem deixar de fora esta enorme fatia do parque imobilirio.

    - Esta falta de atractividade conduz a um baixo valor do produto final, que no deixa margem para o investimento necessrio sua reabilitao, tornando a requalificao do edificado e reas envolventes pouco rentvel, nestes contextos.

    - O facto de uma parte minoritria mas significativa deste parque imobilirio corresponder a edifcios de habitao multifamiliar, dificulta tambm a sua reabilitao ou substituio, j que tais operaes obrigam ao acordo dos vrios proprietrios.

    - A desvalorizao repentina do imobilirio, tem levado muitos proprietrios a reter os imveis na expectativa de uma alterao do contexto que lhes permita minorar as perdas, o que acentua a estagnao do mercado e a degradao do edificado.

    - Multiplicam-se os empreendimentos em fase de construo que, dada a alterao de conjuntura, estagnaram por previsvel falta de compradores ou falncia do promotor, entrando em imediato processo de deteriorao, por incompletude ou simples falta de uso.

    Fig.5 Novas runas

    Apesar das dificuldades do sector da promoo imobiliria e da dramtica reduo dos meios pblicos e apesar do discurso actualmente tido por consensual (e o investimento que o segue) se focar quase exclusivamente na reabilitao dos ncleos histricos defende-se a urgncia de encontrar formas de interveno capazes de impedir a instalao de um processo de abandono e deteriorao em grande escala, e de promover a requalificao e consolidao da urbanizao existente, valorizando-a e aumentando a sua atractividade. A factura de no desencadear desde j esta aco poder revelar-se demasiado alta.

  • 3.3. Em busca de novas atitudes

    Procura-se, portanto, novas frmulas para uma aco adequada ao desafio da reurbanizao.

    Tais frmulas exigem novas atitudes de planeamento e gesto, apostadas at agora em controlar e distribuir uma fora de crescimento, sempre dada por adquirida e que agora desvanece. Sieverts sublinha a necessidade de uma posio mais activa e criativa da parte das entidades pblicas (2003[1997]. 122), que devero ser capazes de promover os processos necessrios revalorizao pretendida. Processos participados que mobilizem todos os actores disponveis: num momento de escassos recursos e dinmicas, todos eles devero ser mobilizados para um objectivo partilhado, algo que exige rever o papel dos diferentes intervenientes, tal como defendido no ponto 2.3.

    Estes novos processos exigem aos arquitectos que neles participem um novo posicionamento, mais atento ao existente. Pensamos que o existente emerge como um suporte poderoso da imaginao. As cidades acumularam matria suficiente, e esto quase sempre em processo de mutao [] Prolongar as estruturas existentes, somar, agregar, unir, ampliar, sobrepor, montar para construir algo novo muito eficaz: a infra-estrutura urbana, arquitectnica e paisagstica j est a, h apenas que aproveit-la (LACATON, VASSAL, 2011. 173)

    De facto, tudo aponta para a necessidade de uma atitude projectual em que o campo de aco tenda a limitar-se (re)utilizao dos materiais e instrumentos encontrados no local. Materiais fsicos: infra-estruturas, edificado, vigas de madeira, blocos de pedra, rvores, relevo, linhas de gua Mas tambm os regulamentos e processos existentes, os actores locais, as dinmicas sociais e econmicas instaladas, as oportunidades.

    Neste sentido, Marta Labastida (2010, 2012) prope o termo bricolage enquanto descritor de um modo de relao com o territrio que se estende anlise, definio do problema, projecto, construo e posterior apropriao.

    Uma atitude que no parte de modelos prefigurados: projecto e processo inventam-se a partir das condies encontradas, com base numa relao prxima e atenta realidade concreta, que nega a habitual mediao entre o arquitecto e o projecto; entre o arquitecto e a realidade por modelos abstractos e generalizveis.

    Uma atitude de carcter processual, que encara a interveno como momento de uma contnua mutao do territrio que o antecede e prolonga. A interveno no visa, assim, a criao de um produto final, mas a produo de dispositivos que potenciem a transformao futura, e que permitam e mobilizem a aco de outros actores.

    Bricolage descreveria ento um modo de aco, por parte do arquitecto, adequado aos processos de reurbanizao que aqui se propem como resposta aos desafios que se desenham para o futuro prximo.

    Um modo de aco que abre um amplo campo de investigao e experimentao que urge percorrer.

  • Legendas

    Fig.1 Loteamentos em Vila Nova de Famalico. Representa as reas das parcelas relativas a processos de loteamento urbano, de acordo com dados fornecidos pela Cmara Municipal. Os loteamentos so sobrepostos a uma mancha representando as principais contiguidades urbanas, obtida com base num buffer de 25m ao edificado. Imagem do autor.

    Fig.2 Loteamentos e fragmentao. Dois exemplos: Valongo e Moreira da Maia. Imagens: http://www.bing.com/maps/.

    Fig.3 Decrscimo da promoo imobiliria residencial. Evoluo do nmero de fogos licenciados e alojamentos construdos, entre 1995 e 2010, em Portugal. Dados do INE. Grfico do autor.

    Fig.4 Percentagem de edifcios construdos aps 1970, face totalidade de edifcios actualmente existentes, no Arco Metropolitano do Porto. Dados do INE com base no Censos 2011, escala da freguesia. Representao com base numa mancha das contiguidades urbanas (reas resultantes de buffer 50m, superiores a 3ha) determinada no mbito dos estudos conducentes ao Plano Regional do Territrio Norte (PROT-N), desenvolvido no CEAU-FAUP, 2007. Imagem do autor.

    Fig.5 Novas runas. Dois loteamentos inacabados em processo de degradao em Vila Nova de Famalico. Fotografias do autor.

    Referncias citadas

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    Agradecimentos

    Ao Professor lvaro Domingues, pela constante orientao, discusso, crtica e apoio.

    Ao Professor Nuno Portas, pelas longas conversas.

    Diviso Municipal de Planeamento Urbanstico da Cmara Municipal de V.N. de Famalico, em especial Arq Francisca Magalhes, pela disponibilidade e fornecimento de informao.

    Dra Marta Martins pela reviso atenta.

  • A investigao em que se enquadra o presente artigo conta com o apoio da Fundao para a Cincia e Tecnologia, atravs de uma Bolsa Individual de Doutoramento.

    Biografia

    Nuno Travasso (Porto, 1980) arquitecto, assistente convidado na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, doutorando e investigador do grupo Morfologias e Dinmicas Urbanas do Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo da mesma faculdade.

    Dedica-se investigao sobre o papel do projecto de arquitectura nos processos de produo de espao urbano no contexto contemporneo, debruando-se em especial sobre as reas da urbanizao extensiva, programas de dominante residencial, novos modos de habitar e dinmicas urbanas.

    Entre 2007 e 2010 integrou o projecto de investigao Polticas Urbanas II: Transformaes, Regulao e Projectos , desenvolvido no CEAU-FAUP, coordenado pelo Professor Nuno Portas e encomendado e publicado pela Fundao Calouste Gulbenkian.

    Foi colaborador no gabinete do Arq. Jos Fernando Gonalves (2003/2004 e 2007/2010), tendo igualmente exercido arquitectura enquanto profissional liberal.